As novas fronteiras da arquitetura

As pranchetas começaram a perder espaço quando surgiu o Autocad. Agora, é a vez de o software de desenho começar a ficar para trás, suplantado pelo Revit, uma ferramenta que permite a modelagem dos projetos em 3D. Por Carolina Vicentin

“Mais importante do que a arquitetura é estar ligado ao mundo”, disse, certa vez, Oscar Niemeyer, responsável pelo maior projeto modernista já consolidado. E se o criador de Brasília estiver mesmo certo, os arquitetos precisam estar sempre de olho nos novos recursos da profissão. Softwares e máquinas de prototipagem 3D que já são comuns em escritórios de arquitetura do exterior começam a chegar timidamente a empresas brasileiras. Junto a eles, o adeus ao popular Autocad e uma verdadeira revolução na forma de conceber e executar projetos arquitetônicos.

No Guggenheim de Bilbao, “cada quadradinho” foi feito com modelos em 3D: é a chamada “fabricação digital”

Tudo começa na hora do esboço. Os programas de desenho que deram lugar às pranchetas na década de 1990 agora oferecem ferramentas específicas para o trabalho do arquiteto. Por incrível que pareça, o Autocad não foi inventado para atender às necessidades dos profissionais do traço; foi apenas adaptado da indústria para os escritório de arquitetura. O software da vez se chama Revit. Fabricado pela mesma empresa do Autocad, o Revit é uma ferramenta de desenho paramétrico em 3D. Isso significa que os arquitetos podem elaborar projetos a partir de padrões armazenados na biblioteca do programa. Podem testar materiais, texturas, tamanhos e configurações de todos os tipos até achar o melhor resultado.

“A graça desse software é que ele promove a integração das diversas áreas envolvidas do projeto. O arquiteto já pensa em três dimensões e o cliente recebe o arquivo com o quantitativo de material que será utilizado. É uma simulação da realidade”, afirma o arquiteto chileno Rodrigo Scheel, 32 anos, que foi contratado por um escritório de Brasília para estudar o Revit e desenvolver a biblioteca do software na empresa. Rodrigo explica que o aplicativo também simplifica o trabalho dos arquitetos porque tudo fica armazenado em um arquivo só. Hoje, os profissionais usam o Autocad para desenhar em duas dimensões e outro programa para modular em 3D.

Professor da Architectural Association, escola de arquitetura de Londres, na Inglaterra, o brasileiro Franklin Lee (1), 42 anos, também é adepto do desenho paramétrico. A diferença é que Lee usa o software de modelagem Rhinoceros — não específico para arquitetos, mas que produz resultados semelhantes. O professor ressalta que, além da integração, os programas desse tipo permitem a chamada simulação ambiental. Na tela do computador, é possível melhorar o projeto com base na direção do edifício, dos ventos e da luz solar, aproveitando ao máximo os recursos naturais e reduzindo o uso do ar-condicionado, por exemplo.

“Mesmo quem ainda tem resistência ao uso dessas ferramentas precisa concordar que isso é importante. As questões ambientais dizem respeito a todas as gerações”, diz Franklin Lee. O arquiteto usa o exemplo do prédio da Biblioteca Nacional, na Esplanada dos Ministérios. A brise-soleil (na tradução literal, quebra-sol) do edifício, afirma Lee, poderia ter sido mais bem adaptada à realidade do clima de Brasília. “Se eu estivesse com esse projeto, não teria feito todas as brise-soleil iguais. Com formatos diferenciados, elas poderiam reduzir mais o calor”, comenta. Uma construção famosa que foi projetada com arquitetura parametrizada é o Estádio Nacional de Pequim, na China, o Bird`s Nest (Ninho de pássaro, em inglês).

Formas únicas

A complexidade do estádio se deve também ao uso de máquinas de prototipagem 3D na arquitetura. A chamada fabricação digital permite que comandos do computador definam formas refinadas, cada uma diferente da outra. A técnica, conhecida como CNC (Controle Numérico por Computador), já era utilizada na indústria — desde celulares até aviões — e começou a ser adotada para a confecção de maquetes. Hoje, já existem os primeiros edifícios feitos totalmente dessa forma. No Museu Guggenheim Bilbao, na Espanha, por exemplo, cada “quadradinho” do prédio foi esculpido por uma máquina de CNC.

Dono de uma empresa de prototipagem rápida, o arquiteto Igor Lacroix, 28 anos, já elaborou peças de design únicas que chegaram a ser expostas em feiras de arte. “Há 10 anos, o custo dessa tecnologia era enorme, só as grandes indústrias usavam. De uns três ou quatro anos para cá, isso tem ficado mais acessível. Ainda não é uma realidade na arquitetura, mas será, em um futuro próximo”, aposta. “Existe até uma corrente que acredita que, em breve, seremos todos arquitetos-programadores”, completa Igor.

As novas ferramentas também gerarão impactos em toda a cadeia envolvida em uma construção. Os programas de desenho paramétrico vão, a grosso modo, delimitar até onde o arquiteto pode ir. A possibilidade de testar materiais e medidas também facilitará o trabalho dos engenheiros. “O projeto em 3D já vem com as vigas e pilares no lugar certo. O que o engenheiro vai fazer é conferir se essa estrutura está mesmo correta”, exemplifica o arquiteto Rodrigo Scheel.

“Os softwares de desenho paramétrico reduzem custos, geram uma forma complexa que é totalmente racional e que realmente responde aos problemas da arquitetura”, destaca o arquiteto venezuelano Ernesto Bueno, que estará em Brasília neste fim de semana para dar um curso sobre arquitetura parametrizada. O desafio, dizem especialistas, é fazer com que todas as novidades sejam implantadas na cadeia construtiva. “O principal problema de implantação é criar o hábito do uso. E isso demanda um investimento alto (2), que muitas empresas não estão dispostas a fazer”, destaca Rodrigo.

Para a professora Beatriz de Abreu e Lima, que ministra a disciplina Projeto de Arquitetura no UniCeub, o poder não está somente nas ferramentas, mas na forma como elas são utilizadas. “Com esses novos recursos, tanto podemos construir um ícone estapafúrdio quanto um edifício pensado para desempenhar uma performance ambiental específica. O importante é perceber que ainda está nas mãos do arquiteto, não há um script já pronto”, diz.

A professora Beatriz de Abreu e Lima falou ao Correio sobre as novas tecnologias utilizadas na arquitetura. Beatriz é professora da disciplina de Projeto de Arquitetura, no UniCEUB. Tem mestrado pelo Design Research Laboratory (Laboratório de Pesquisa em Projeto) da Architectural Association School of Architecture, de Londres. Leia:

Antigamente, os arquitetos usavam papel e caneta para projetar. Isso ainda existe hoje? Em quais circunstâncias?
O uso de novas ferramentas não invalida nossas tradicionais maneiras de representar, como o croqui, e a representação em projeções, como a planta baixa e o corte, por exemplo. Podemos ter diversas situações onde essas ainda se fazem necessárias e até mais adequadas. É preciso lembrar que o operário em uma obra, muitas vezes, ainda tem dificuldade de compreender essas informações. Para fabricar digitalmente componentes de uma fachada, podemos partir direto para a fabricação digital a partir de uma representação tridimensional. Mas podemos também encaixá-la em um edifício tradicional, que pode ter sido desenhado com plantas baixas e cortes.

Quais as vantagens que o computador trouxe aos arquitetos?
Uma das vantagens é a possibilidade de gerar, exaustivamente, novas possibilidades para uma dada situação, um método de projeto que envolve constante análise e experimentação. Na tentativa de representar a dinâmica da cidade, poderíamos gerar uma animação feita com softwares avançados, mas também poderíamos fazer um storyboard à mão, quadro-a-quadro. Só que esse último levaria mais tempo para ser feito. Hoje em dia, podemos fazer várias soluções em pouco tempo, experimentar mais. Mas é certo que muitos profissionais vão ficar no primeiro e rápido estudo.

O uso de ferramentas tecnológicas já está incorporado aos currículos universitários? Ou o aluno precisa buscar formação em outros lugares?
Estamos passando por uma gradual adaptação para projetarmos digitalmente. A situação atual, na maioria das escolas, é o uso de softwares para representação bidimensional e, por vezes, também de modelagem tridimensional. No entanto, vemos que esses softwares são usados, na maior parte das vezes, apenas para representação do projeto, e não contemplam nenhum método específico de geração digital do projeto. Continuamos a projetar exatamente como há vinte anos atrás, só que, em vez de desenharmos à mão, estamos representando com o computador.

Como mudar isso?
Se não enfrentarmos uma mudança de paradigma nos métodos e estratégias de projeto, ou seja, pensarmos e representarmos de maneira distinta ao que vínhamos fazendo, corremos o risco de ter máquinas moderníssimas, de alta tecnologia, porém utilizar métodos e estratégias de projeto anacrônicos, inadequados para tratar com elas. Por exemplo, para fazer uma maquete física de uma casa cúbica, torna-se desnecessário utilizarmos uma impressora que imprime em três dimensões, esta poderia ser representada facilmente com outros meios.

Há em curso alguma mudança do perfil do profissional da área?
A organização dos arquitetos em equipes maiores. Não é mais o gesto de um só arquiteto, mas a contribuição e a riqueza de uma série de profissionais em colaboração, organizados e identificados como um grupo. Também não podemos subestimar a pesquisa como uma estratégia de projeto atualmente, é o que se chamam de práticas research-based, ou seja, práticas baseadas na pesquisa. Antigamente, havia um corte muito grande entre o que se chamava de arquiteto de prancheta, o arquiteto praticante, com escritório, e o arquiteto acadêmico, teórico. Essas diferenças hoje estão mais equalizadas e difusas.

Existe alguma desvantagem do uso dessas ferramentas por arquitetos em formação?
O encantamento apenas com as formas mirabolantes que podem ser criadas com esses novos recursos e esquecer a função crítica do arquiteto na sociedade. Não há nenhum ganho se utilizamos novas ferramentas e não exercitamos nossa postura crítica e capacidade analítica.

Mesmo com o surgimento de tantos recursos, o arquiteto ainda é fundamental, certo? Por que?
Creio que, para enfrentar as nossas complexas questões sociais, de país emergente, temos que ter cada vez mais ferramentas e estratégias tanto mais sofisticadas quanto mais criativas de projeto, uma maneira de nos aproximarmos da compreensão das nossas realidades. Assim, o poder não está somente nas ferramentas, mas em como as usamos. Com esses novos recursos, tanto podemos construir um ícone estapafúrdio quanto um edifício pensado para desempenhar uma performance ambiental específica. O importante é perceber o arquiteto tem um papel importante e não um script já pronto.

1 – Talento nacional
O arquiteto paulistano Franklin Lee formou-se nos Estados Unidos e trabalha há 20 anos com computação digital. Ele dá aulas na escola Architectural Association, em Londres, uma das referências na área. Lee, no entanto, passa de seis a sete meses no Brasil, trabalhando com projetos sociais. Em julho deste ano, ele fará uma oficina com seus alunos para a implantação de projetos em três viadutos de São Paulo. A ideia é que, ao fim do workshop, os espaços tenham uma cozinha, um banco e um vestiário.

2 – “Mãozinha” do governo
O governo do Chile lançou este ano um projeto piloto para incentivar o uso do programa de desenho paramétrico Revit por escritórios de arquitetura e empresas construtoras. Uma agência foi contratada para estudar e elaborar a biblioteca do programa. O resultado será “doado” às empresas interessadas.

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